Por Leandro Alves Barros (Fisioterapeuta), Erika Lira dos Santos (Acadêmica de Fisioterapia) e Brenda Miranda da Cunha (Acadêmica de Fisioterapia).
Muito além do alívio de dores quando falamos em gravidez, é muito comum as pessoas pensarem que a fisioterapia serve apenas para aliviar aquela famosa dor nas costas ou os repuxões do nervo ciático. Mas a verdade é que o foco do especialista vai muito além: nós trabalhamos a funcionalidade e a preparação biomecânica do corpo para as profundas e belas transformações da gestação.
Ouvindo
nossas pacientes (aqui chamadas por nomes fictícios para preservar sua
privacidade), percebemos o quanto essas mudanças geram dúvidas e inseguranças.
"Ana", uma jovem gestante, nos contou que o seu maior medo era
justamente a "mudança mesmo" pela qual o seu corpo passaria. Já
"Camila", que relatou escapes de xixi ao espirrar e tossir, nos
perguntou de forma muito sincera: "Para que serve a fisioterapia
obstetrícia, pélvica?", revelando também o seu medo de ficar com
excesso de peso e com a diástase aberta. É exatamente para acolher mãezinhas
como a Ana e a Camila, desmistificando medos e preparando o corpo, que a
fisioterapia se faz essencial!
Gestão
da Diástase: Muitas
mulheres chegam até nós com receios parecidos com o de "Mariana", uma
tentante que perguntou se engravidar tendo diástase pioraria a situação ou se
ela deveria fazer fisioterapia para fechar primeiro e depois engravidar. A
resposta está na prevenção: prescrevemos exercícios preventivos e específicos
para manter a integridade da parede abdominal durante o crescimento da barriga.
Assoalho
Pélvico: Este
"berço" muscular precisa de treinamento para conseguir sustentar o
peso crescente do útero. Mulheres como "Sofia", que relatou no
pós-parto sofrer com escape de xixi e perguntou qual seria o tratamento,
poderiam ter se beneficiado desse trabalho preventivo durante a gestação para
melhorar a função do assoalho e o controle urinário.
Preparação
para o Parto: O
momento do nascimento gera ansiedade. "Júlia", uma gestante muito
jovem, tinha muito medo da dor e nos questionou "Como controlar a
respiração na hora do parto?". O fisioterapeuta atua diretamente
nisso, ensinando técnicas de respiração e posições que favorecem a descida do
bebê.
Consciência
Corporal e Respiração:
A fisioterapia utiliza estratégias naturais e terapêuticas para aliviar a dor,
a ansiedade e a tensão corporal (comumente causada por estresse). O
fisioterapeuta orienta a gestante a desenvolver consciência corporal — o ato de
perceber, sentir e entender as mudanças que estão acontecendo no próprio corpo.
Para responder à dúvida da nossa paciente "Júlia", ensinamos a
técnica de respiração diafragmática (inspirar pelo nariz e expirar suavemente
pela boca), que ajuda a melhorar a oxigenação da mãe e do bebê. Respirar de
forma correta oferece múltiplos benefícios: evita que os músculos fiquem tensos
ou travados (o que dificultaria a saída do bebê), diminui a ansiedade e o medo,
além de ajudar a relaxar e contrair o assoalho pélvico no momento certo para
evitar lacerações.
Mobilidade
e Alívio da Dor:
Durante o trabalho de parto, é fundamental que a gestante tenha mobilidade para
ajudar o bebê a se encaixar na pelve. Para isso, são utilizadas técnicas de
mobilidade pélvica com a bola suíça, que ajudam a relaxar e fortalecer os
músculos do assoalho pélvico, aumentar a flexibilidade, destravar o corpo e
reduzir a dor lombar. Outra técnica não farmacológica muito utilizada pela
fisioterapia é o aparelho TENS (Estimulação Elétrica Nervosa Transcutânea),
usado para aliviar a dor e promover conforto. Geralmente colocado na região
lombar, ele gera pequenos estímulos elétricos que bloqueiam sinais de dor.
Otimização
do Parto: Sentir,
controlar e usar melhor o próprio corpo é fundamental para aumentar a
consciência corporal. É entender os limites e capacidades do corpo, perceber o
momento certo das contrações, o relaxamento entre uma contração e outra, e as
movimentações do bebê.
A
Reabilitação (Pós-Parto)
A reabilitação pós-parto com fisioterapia é um processo personalizado para
ajudar a mulher a se recuperar de forma segura e eficaz. Este é o ponto crítico
onde a paciente mais precisa de suporte para retomar sua autoestima e saúde
física.
Avaliação
e Tratamento da Diástase:
Recebemos o relato emocionante de "Luísa", que sentia que sua barriga
"abriu e não voltou" (diástase) e que notava um "calombo"
sempre que fazia algum esforço. Ela nos perguntou como trabalhar a ativação do
músculo transverso para melhorar esse quadro. O primeiro passo é uma avaliação
inicial pelo fisioterapeuta para identificar as condições da mulher e iniciar
exercícios específicos, como a Ativação do Transverso do Abdômen, visando
fechar a separação dos músculos abdominais e fortalecer o "core".
Retorno
Seguro aos Exercícios e Cuidados Pélvicos: O trauma do parto pode deixar marcas. A mesma
"Luísa" nos contou que ir ao banheiro pela primeira vez após dar à
luz foi muito difícil, os pontos causavam ardência, e ela desenvolveu dor nas
relações sexuais. Trabalhamos a recuperação dos Músculos do Assoalho Pélvico
(MAP) com técnicas como a Kinesi do MAP, com o objetivo de evitar a
incontinência urinária e melhorar a função sexual.
Postura,
Equilíbrio e Conforto:
O fisioterapeuta cria um plano de tratamento para aliviar dores lombares e
pélvicas. Além disso, realizamos treinos de postura e equilíbrio com
orientações essenciais para que a mãe tenha uma amamentação confortável e maior
confiança para cuidar do bebê.
O
acompanhamento de um fisioterapeuta não é apenas um "extra", mas uma
garantia de acolhimento, com recuperação mais rápida e segura. Queremos alertar
a toda a população: não passem pelas transformações da gestação e pelo
delicado período do pós-parto sozinhas. A fisioterapia obstétrica está aqui
para cuidar de quem cuida!
Sobre
os Autores:
Leandro
Alves Barros:
Fisioterapeuta e Educador Físico com mais de 10 anos de experiência em promoção
da saúde, educação corporal e reabilitação. Possui especializações em
Fisioterapia Desportiva e Fisioterapia Gerontologia e Geriátrica. Atua como
professor universitário, fisioterapeuta clínico, e é o fundador e responsável
pelo Base Forte - Grupo de Pesquisa em Saúde.
Brenda
Miranda da Cunha:
Acadêmica de Fisioterapia e integrante do Base Forte - Grupo de Estudos em
Saúde.
Erika
Lira dos Santos:
Acadêmica de Fisioterapia e integrante do Base Forte - Grupo de Estudos em
Saúde.



Excelente artigo! É fundamental desmistificar a ideia de que a fisioterapia obstétrica se resume ao mero alívio das clássicas dores lombares. A forma como o texto evidencia a importância da preparação biomecânica, do suporte ativo no trabalho de parto e, sobretudo, da reabilitação no pós-parto (como a gestão da diástase e a recuperação do pavimento pélvico) mostra a verdadeira dimensão desta especialidade. Infelizmente, muitas mulheres ainda sofrem em silêncio com disfunções no pós-parto por falta de informação. Parabéns a toda a equipa de autores por promoverem a literacia em saúde materna de uma forma tão clara, empática e baseada em evidência!
ResponderExcluirConhecimento necessário em nossa sociedade, e de fundamental importância na saúde da mulher!
ExcluirEu vejo esse tema como algo extremamente necessário e transformador, principalmente para nós, mulheres. A fisioterapia obstétrica vai muito além de técnicas, ela traz acolhimento, segurança e autonomia para a gestante e para a mulher no pós-parto. Entender o próprio corpo, saber respirar, se movimentar e se recuperar de forma correta faz toda a diferença na experiência da maternidade.
ResponderExcluirTambém acho muito importante destacar o quanto o trabalho em grupo e a realização dessas pesquisas científicas são fundamentais. É através desses estudos que conseguimos levar informação de qualidade, baseada em evidências, para a população. Isso não só orienta melhor as mulheres, como também quebra tabus, reduz medos e mostra que existem cuidados específicos que podem melhorar muito a saúde e a qualidade de vida nesse período tão delicado.
Parabéns as nobres colegas academicas e ao nosso mestre Professor Leandro.
Agradecemos imensamente pelo seu comentário e pela reflexão tão pertinente. É exatamente essa a visão que buscamos promover com as nossas pesquisas. A fisioterapia obstétrica transcende a aplicação de técnicas; trata-se de empoderar a mulher através do conhecimento do próprio corpo, garantindo qualidade de vida em um momento tão delicado. Ficamos muito felizes em saber que você valoriza o trabalho científico como um meio de desmistificar tabus e orientar a população. Transmitiremos os seus parabéns a todas as colegas acadêmicas e ao Professor Leandro. Seu apoio nos motiva a continuar produzindo ciência de qualidade. Um grande abraço da equipe Base Forte!
Excluir